quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Assombramentos


Pra quem não conhece essa estória, eu vou contar. Desde piazito e muito cedo, tive medo de alma penada. E sempre que seguia a noite alguma estrada e encontrava uma encruzilhada, parecia perseguição, pois sempre uma assombração vinha para conversar. Não é que eu queira me gavar, era mais requisitado que padre de altar!

O que queriam falar era desde um pedido que desse um recado, reclamação do túmulo abandonado, ou cobrança de alguma conta. Sempre afoita e em desespero reclamavam do enterro mal feito, do defunteiro, da cor da fatiota, ou até de algum sujeito de olho na viúva, na hora do velório.

Honório é meu nome. Mas há quem me chame de: “O homem que entende de defunto!” Sem mais delonga, perdi a conta de tantos atendimentos. Ver um sujeito em sofrimento, depois que espichou as canelas, não há coração que não parta de ver sua agonia.

Tinha dias, que tinha fila para conversação. Parecia correição de formiga e a estrada ficava apinhada de penitente. Já com vontade de sentar o braço, gritava então: Se aprumem, um por vez!!!

Tinha mais freguês que a venda do Anastácio. E não era qualquer índio macho, que dava conta de tanto encaminhamento. Acauso, um vento soprava de relancina no meu ouvido, eu já dizia: Chegou mais um bacudo sofrido, para fazer um pedido e uma reclamação!

Os anos se passaram então, eu já não agüentava mais, ser o capataz e porta voz, de tanta alma penada! Resolvi dar um basta e fiz um juramento. Não sou jumento para carregar este fardo, nem moleque de recado, pra ficar enredado no lamúrio dos defuntos!

Pra encurtar o assunto, vendi minha égua de carreira, fiz um capricho de gastar todo o dinheiro em vela e acendi numa barranca. Coloquei até uma santa, pra atender todos os pedidos e pra que nem mais uma alma se levante e venha me aporrinhar. Levantei até um altar de pedra que juntei perto de uma sanga e a estória deu muito pano pra manga, pois a reclamação foi tanta entre os falecidos, que me deu vontade de defuntear todos eles.

Hoje sou conselheiro dos vivos. Proseio com os viventes que vejo pela frente, que não deixem nem uma pendenga, prenda no compromisso, que não matem nem um bicho por covardia. Que não façam judiaria com filha de ninguém e se por bem não me entendem, já digo: Depois não venha se queixar se acaso a morte vier lhe encontrar e ficar uma aresta!

Pois sujeito que não presta, está cheio do outro lado. E não me faço de rogado para o esclarecimento, mando que tome tento e se encaminhe na vida. Que dê rumo aos acontecimentos e que não matem nem um sujeito de traição. Pois, tem vivente nesta vida, que não presta nem pra fazer sabão!!!


Mais um causo gaúcho.
Beijos, aos que visitam este espaço!


Acauso: Acaso.
Alma penada: Assombração.
Apinhada: Aglomeração, aglomerado, porção de coisas muito juntas.
Aporrinhar: Aborrecer, incomodar, importunar.
Aprumar-se: Melhorar de sorte de negócios, de saúde, de fortuna. Endireitar-se, arranjar-se. Pôr-se de pé.
Bacudo: Matuto, caipira.
Capataz:
Administrador de uma estância, responsável pela condução de uma tropa.
Correição: Grande quantidade de formigas.
Defuntear: Matar, assassinar. Terminar consumir.
Defunteiro: Pessoa que trata de enterros.
Enredado: Enleado nas rédeas, no laço, no amarrado. Emaranhado.
Espichar as canelas: Morrer.
Fatiota: Conjunto das roupas do homem: calça, colete e paletó.
Gavar: Gabar.
Lamúrio:
Lamúria, choradeira.
Penitente: Padecente, sofredor.
Piazito: O mesmo que piazinho.Piá pequeno.
Relancina: Relance, repente, rapidez, velocidade. Repentinamente.
Sentar o braço: Surrar, bater espancar, esbofetear, esmurrar.
Tomar tento: Tomar jeito, tomar um rumo, tomar uma direção.
Vivente: Pessoa, criatura, indivíduo.

10 comentários:

Milly disse...

Virgem Santíssima!
É por estas e outras,que me faço de tola e evito escutar as vozes que insistem em falar ao meu ouvido..rs
Eu lá sei se querem dar algum recado?
Nem dou conta dos meus!
Mas,se fosse o Patrick Swayze...eu até anotaria o recadinho...um "ghost" assim,não se encontra em qq encruzilhada...rs

Leonardo Curcino disse...

gostei disso! nao conhecia! um beijo de quem visita este espaço sempre que arruma um tempinho!

;)

Milly disse...

Uia!
Nem tive espaço pros pitacos...rs
Adoro estes causos,sabias?
Bela página!
Beijos...muitos!
.
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Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Lu,
quero publicar o seu poema "Na ausência do calor" no meu próximo post. Mande a imagem também, ok?
Beijos,

Oliver Pickwick disse...

Um porta-voz das almas. Muito, muito interessante.
Aqui, não se perde a viagem. Mesmo chegando atrasado, porém, a certeza da boa leitura é inquestionável. ;)
Um beijo!

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Outro lindo poema em prosa.
Querida:
Por motivos de foro íntimo, não sei quando poderei voltar a publicar, por isso postei hj, mas todo dia ligarei o computador para ver se vocês têm vindo prestigiar-me.
Um beijo,
Renata
wwwrenatacordeiro.blogspot.com
Vá ver seu poema publicado, Lu!

O Profeta disse...

Que história minha amiga...adorei...

Doce beijo

Véu de Maya disse...

tanto mistério e coisa intintiva na noite do abismo e do inconsciente da vida e da morte...na sua bela narrativa...Gostei muito do vocabulário específico que entra nas histórias de assomração....

xi-coração

Lu disse...

Milly!
DEus me livre e guarde, de escuta esses troços né mesmo?
Se bem que aquele lá, muita mulher queria ouvir...rss

Gosta de causo? Pois já vem outro!

Beijos, menina que gosto por demais da conta!

Fátima N. disse...

_____deliciosa viagem nesse mundão imaginário...adorei!!
imaginei as cenas e cheguei a escutar o lindo sotaque.
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beijo amada.