quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Menina de trança


Toda vez que olho o manto do passado, te procuro e tento rever. Não sem ter nostalgia dos dias em que ria, brincava e achava graça. Porque através dos teus olhos vejo os sonhos que eram seus, tão meus e tão atuais. Negar que não são mais, seria te desmentir. Não sentir, é renegar um pedaço de mim. E assim, tento lembrar como era o teu sonhar e tento te achar em meio às flores.

Relembro suas dores, seus silêncios nos momentos que alguma coisa não entendia. Mas sentia os olhares em sua direção, por vezes mais fortes que as ações. E sei que trouxe impressões e algumas imagens, dessas passagens.

Às vezes me dou conta de que o tempo não passou. Nesta luta incessante de gestos, de mãos estendidas. Do tempo que vias a vida com olhos ingênuos, achando que o mundo era pequeno, bonito e feito de jardins.

E assim, percebo que as mãos que acariciavam o gato são de fato as mesmas que hoje estão a escrever. E escrevo para você entender, que te acolho em meus braços e sei que faço por te compreender. Enxugo sua testa febril, dizendo que a dor já vai passar. Tento lhe afagar, segurando-lhe no instante que estas a desmaiar. E no chão inconsciente, canto para você perceber que não estas a sós e que já vão lhe encontrar. Tento falar para que não tenhas medo das imagens, são miragens, é a febre de novo a te castigar.

Acolho-te com carinho e digo baixinho, eu te amo! Chamo-te, te mostro as borboletas a sobrevoar. Tento mostrar uma florzinha miúda, as cores, os fatores e diferenças, enquanto pensa, porque és diferente. Sei que sente medo e insegurança. Uma criança tão pequena, sentindo-se não ser deste mundo. E a estranheza, com certeza, tinha suas razões.

Embalo-te com carinho, enxugo tuas lágrimas, quando te acho num cantinho sofrendo calada. Acolho-te em plenitude e essência, com ternura e paciência. Acolho-te na sua inocência, dizendo em seu ouvido, não chore criança, que não deixarei ninguém lhe fazer nem um mal.

Agora sei afinal, tudo que não sabias e não é menos dolorido. Por vezes vejo a anciã Lu a me espreitar, seus olhos serenos parecem dizer: “Tu sobreviverás, não precisa chorar!”

Um dia nós três iremos nos reencontrar, caminharemos de mãos dadas, seguindo a estrada bela e ensolarada. E enfim, faremos um jardim impregnado de cores, cheio de flores, feito somente de amores. Seguiremos a jornada, cantando nossas canções preferidas. Sentindo que o que deixamos para trás, foi só mais uma vida.




P.S: Todavia, há um espírito de uma guerreira, que jamais perdeu a esperança que a menina de trança sobreviveria. Embora visse as fragilidades, mostrava as verdades e guiava com segurança. Para a mulher de hoje, pede-lhe cautela e paciência.


Beijos, aos visitantes deste espaço!




Getty Images

14 comentários:

Anne disse...

Como já te falei, esse texto me emocionou. Achei tão linda a maneira de vc falar dessa menina, da menina que foi e ainda faz parte de ti, uma forma mto doce, suave... quase como uma mãe que cuida e protege.

Ah, minha amiga, vc escreve cada vez melhor. Posso ver a sua beleza estampada nessas palavras, sempre e cada dia mais. Es linda, muito linda, por dentro e por fora. Que suas palavras reflitam sempre essa beleza e todo o resto que faz parte de sua trajetória e de quem és.

Amo vc, sempre, vc foi um presente que Deus colocou no meu caminho. Como já te disse, não imagino meu mundo sem sua presença nele!

E obrigada mais uma vez pelos palpites e a ajuda com a nova decoração da minha casinha. Ficou linda, eu amei!

Beijossss

Véu de Maya disse...

Olá Lú!

teu texto me comoveu muito...a sua escrita é muiot tefrna e pura...muito encanto na tua alma.

bjinho

Leonardo Curcino disse...

esse texto me lembrou uma historia que minha mae contava pra mim na infancia.

e quanto ao proximo post, eu estou sem tempo de tudo, trabalhando demais e tal. o dia que rolar uma inspiraçaozinha, eu escrevo algo. andei pensando em um poema ontem no metrô.

:***

Renata Maria Parreira Cordeiro disse...

Só porque as coisas não vão bem a amiga se esqueceu de mim? Tenho mantido o Blog a duras penas e tenho publicado obras alheias. Neste último, publiquei duas obras de outros blogueiros. Apareça, Lu.
Beijos,
Renata

Vivian disse...

...escreves com a alma.
só poderia nos emocionar.

obrigada pela visita, minha linda!

amei estar aqui...

bjs

Vieira Calado disse...

Beijos também para você.
;)

Milly disse...

Nunca deixe morrer a menina que existe em ti...
Sabes pq?
Pq um dia,qdo a velhice chegar...e a solidão se fizer ainda mais presente...é ela que te fará sorrir!
Ela guardará as lembranças dos tempos vividos e das maluquices realizadas...
Só ela te lembrará que um dia tiveste tranças...e cabelos...rss
.
Bom dia,minha amada!!
Ótimo domingo pra ti!!
Te adoro...
.

Lu disse...

Anne!
A alegria é minha em tê-la presente em minha caminhada, mesmo nas horas que falas que tens que se bater com um gato, até ele miar...rss

Obrigada, pelo carinho e admiração, nem sei se mereço tudo isso.

Seu cantinho está lindo. A perereca tem dado um toque diferente ao espaço.Embora, muitos não tenham visto a perereca, pois ela está bem discreta.(hahahahaha)

Minha amiga, confio em seu poder de superação, até quando tu desacreditas.
Beijo!

Lu disse...

Milly!!
Acolho minhas partes e admiro até a mulher guerreira, que lutou e se impôs para chegar até aqui.
Sem ela, estaria parada e estagnada sem o discernimento necessário.

Obrigada pelo seu carinho, pois sei o quanto és parecida comigo no que diz respeito à autenticidade.


Um ótimo domingo para você e os seus. Beijo, muiiiiiitos!

Lu disse...

Obrigada a todos que estiveram aqui neste espaço.Aos comentários gentis e palavras de carinho.

Meu filho disse-me hoje: "Mãe, o melhor texto que escreveu, até agora!"

Um bom domingo a todos!

P.S: Mas sinto falta da cavalaria, ainda não chegou...rsss

Fátima N. disse...

____e eu aqui, vendo e lendo, me encontrando no seu texto, me perdoe atrevimento, vi ali o que vejo aqui...e ahhh... nó que me dá na garganta, e a vontade de chorar, nem é fraqueza é só emoção.
.
obrigada é o que posso dizer.
.
beijos, muitos.

Lu disse...

Fá!
Parceira me emocionas...
E nessas horas fico mudinha.
Agradeço seu carinho.
Beijo!

Oliver Pickwick disse...

Certas infâncias são tão marcantes que até parece que o nosso "eu" criança vai estar sempre ali, ao nosso lado, compartilhando a vida como se uma outra pessoa fosse.
Um beijo!

Coração Alegre disse...

Lindo...lindo...lindo!
Fiz força pra não chorar, porque identifiquei um pouco da criança que um dia eu fui e lembrei de minha mãe, da forma tão doce de dizer que tudo iria passar.
É difícil vir aqui e não se emocionar...Faz um bem enorme pra alma, ler o que você escreve...que Deus te conserve sempre assim, nos emocionando, nos fazendo rir e muitas vezes, nos transportando em suas inspirações.

beijoooooos no teu coração...