A casa ao lado esquerdo da minha, foi vendida alguns anos para uma solteirona. Professora da Universidade, fazia doutorado de línguas ocultas e das letras apagadas. Descendente de alemães e de um município vizinho. Grande figura! Implicante que só, mas boa gente. A cada poucos dias escutava: Vizinhaaaaaaaaaaaaaa! Lá ia eu ver o que ela queria. Então ela começava a falar: Vizinha a sua trepadeira invadiu o meu muro. E lá eu já dizia, usando a política da boa vizinhança e jogo de cintura: Pode deixar, falarei pros meninos cortar nesse fim de semana.Mais uns dias escutava : Vizinhaaaaaaaaaaaaaa...Céus, pensava que planta cresceu tão rápido quanto na história “ João pé de feijão”???????? E assim era, cada poucos dias uma reclamação. Pensei em usar uma estratégia diferente, e falei: Vizinha, também gostaria de lhe fazer um pedido; os galhos de sua árvore estão em cima do meu telhado e as folhas tem caído entupido constantemente as calhas, nas chuvas tem alagado minha casa. O seu jardineiro, ao fazer as podas deixa meu pátio com todos os galhos das plantas. Ela disse que tomaria providências, e tomou mesmo. Pensei, agora ela sossega.
Passado um tempo escuto: Vizinhaaaaaaaaaaaaa...Ai jesus, pensei que será agora? Abri a porta dos fundos, e vi só seus olhos arregalados; pois o muro é alto. Apavorada ela disse: Tem um sapo em cima da minha geladeiraaaaaaaaaaaaaaaaaa!!! Chamei meu filho e disse: Vai lá tirar um monstro de cima da geladeira da vizinha, ( também não sou simpatizante do tal bichinho).
Ela tem vários cachorros, lembro somente o nome de um, o “ Max”. Lá estava eu trabalhando num belo dia ensolarado no meu jardim. Meu filho me ajudava na tarefa, e lá pelas tantas, ouvimos uma voz fina cortando o silêncio, dizendo pro seu fofo cachorrinho: Mákíííísssssssssssssssss...Tu só pensa em sujar, né? limpar que é bom nada!!!! Tivemos uma crise de riso. Lembro-me que ri até doer as costelas enquanto as lágrimas escorriam pelo rosto. Nem nos atrevemos erguer a cabeça e sair do canto do muro. Quando um parava de rir, olhava para outro e explodia em gargalhadas.
Bem, eu sempre preferi trabalhar no meu jardim em silêncio, além de me fazer bem, posso ouvir o canto dos pássaros. Ao contrário de meus filhos que ao cortar a grama, ou fazer uma poda escutam música com som alto, ( desde música clássica, cavalgada das valquírias a folk, New age, variações de rock, MPB e por aí vai).
Lembro-me que um dia, meu filho mais velho chegou em casa e disse: “Mãe, a vizinha é minha professora agora. E adivinha o que ela falou na primeira aula?” Então ele contou que ela tinha dito na sala de aula ter uns vizinhos meio doidos, que escutam umas músicas estranhas... Gargalhamos muito, e um dia dizia para outro: Imagina, claro que nem somos nós! E mais gargalhadas...
Um dia desses enquanto fazia a gruta, escutei a despedida do seu namorado: Smacksss, ( efeito de um beijo estalado) e bzzzz, bzzz, bzzzzzz ( algo dito baixinho), E ela dando um risinho, hihihihi.... Mais um smacksss, mais bzz, bzzz, bzzz e hihihi...
Todavia, não se foi o fato do meu filho mais novo ter se tornado seu heroi, salvado ela do “ terrível monstro”; fato que ela sempre que o encontra na Universidade comenta, ou por estar namorando. Mas ela finalmente sossegou. Nem tem se dado conta, que algumas plantas por vezes atrevidas, espalham seus galhos alguns centímetros no seu terreno.
Um ótimo final de semana para todos!
Beijos!
Imagem: Getty Images




